terça-feira, 28 de abril de 2009

With doors wide shut

Era um fim de tarde marrom-cinza de final de Abril. Era daquelas tardes em que chove, e fica frio, e você brinca dentro de casa, comendo bolinhos-de-chuva e tomando chá mate quentinho. No apartamento onde Ligia morava, sua mãe havia deixado uma garrafa de guaraná na geladeira, e havia biscoitos de polvilho com sabor de queijo. Sua mãe era diretora de escola pública. Seu pai estava “de férias”. Lígia tinha deixado a TV ligada, e brincava com suas bonecas Barbie, uma loira e uma morena, e com seu boneco Ken. Sua mãe tinha sinal roubado da TV a cabo do vizinho, mas Ligia não sabia o que era fazer um gato, então ela achava legal contar pros coleguinhas da escolinha em que estudava. Ela tinha seis anos.
Não sabia ver as horas no relógio de ponteiros, mas sabia que a mamãe estava pra chegar, por que o desenho já tinha começado, e a mamãe sempre chega na metade do desenho. Ela já tinha ido tomar banho, e sua prima mais velha, que era quem tomava conta dela, já tinha ido embora.
Ela vestia seu pijaminha, que era feito de algodão, cor de rosa e com um desenho de uma menininha com cabeça e olhos grandes, cabelo e vestido vermelhos.
Brincava pra tentar fazer o tempo passar mais rápido, pois queria que sua mamãe chegasse logo, pra ela ganhar um abraço, e então poder contar como foi o dia, e ter alguém pra brincar, e depois ir dormir.
E então, ela ouviu o barulho na porta. Seu coração explodiu de felicidade, seus olhos ficaram maiores, e um sorriso iluminou a face infante. Era tanta alegria que não lhe cabia no peito, ela levantou-se de um pulo só e foi correndo ao encontro das pernas da mãe, que era onde ela alcançava. Deu um abraço com a cara na coxa da mãe, foi suspensa pelos suvaquinhos e recebeu um abraço e um beijo. Enroscou as pernas no tronco da mãe e começou a contar sobre o seu dia. E contou que naquele dia, ela tinha aprendido a família do BÊ. “O bebê babou na babá”. E contou que a professora tinha elogiado a letra “o” minúscula dela, que era bem redondinha. E a mãe foi tomar banho, e ela foi pro quarto. E elas foram brincar juntas. A mãe corou quando viu a disposição das bonecas. A morena de joelhos, com as mãos no chão. O boneco Ken de joelhos, atrás da boneca Barbie morena. Ambos os bonecos sem roupa. E a Barbie loira, diagonalmente atrás dos outros dois bonecos.
“Olha mãe, essa sou eu, essa é você, e esse é o tio Rafa, quando ele veio aqui em casa naquele dia que tava chovendo. Sabe, naquela noite, eu fiquei com medo, e fui no seu quarto pra dormir lá. Aí eu ouvi você falando que tava uma delícia. O que tava uma delícia mamãe?”

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Cinco anos

Olá pessoas.
vasculhando por infindáveis kbytes, acabei por encontrar um texto que havia escrito cinco anos atrás, e resolvi postar. De maneira sincera, lhes digo que quero postar para que vocês possam contrastar o que eu fui com o que eu sou, em termos de escrita, e, então me darem um feedback (if you feel like...^^)

Mente Atormentada

Mente Atormentada,
sonhos volúveis
visão admirada
de lembranças inúteis.
Sombras que me perseguem
nos devaneios de um pesadelo
que embaralha minha mente
como linha em um novelo.
O cheiro da loucura,
o gosto do medo.
Há alguém me perseguindo
que apenas eu vejo.
De volta ao pesadelo,
vejo as sombras outra vez,
que revelam a meus olhos,
já brilhando de avidez,
por enfim encontrar
o que lhes fazia temer.
Uma mulher nua
de face antes rosada, agora pálida
afogada numa banheira
de sangue e lágrimas.
Acordo de sobressalto,
suando de frio.
Minha mãos gélidas,
na minha mente um vazio.
Apenas lembranças
que significam nada.
São somente ilusões
de uma Mente Atormentada.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pulse (do título aleatório)

Paradoxal à certeza do nascer do Sol,
Dá-se a incerteza determinada e precisa
Que investe contr’almas de mente decisa.
Sem razão, sem prol.

Logo a mim, que sempre me tive austero,
avassala a incerteza oposta à calmaria.
E ainda que me dissesse Maria,
“calma-te filho, isso não tarde a deixar-te”
Não poderia eu crer em tal disparate.

Pois com tal força aperta-me o peito
sentimento forte, onda feito.
Me abraça, me domina, escandaliza
o meu silêncio.

Ah, sentimento, quisera eu arrancar-te de mim,
E deixar de sentir essa dor.
Que saudoso seria eu então,
Deste sentimento ingrato, pagão,
Que torna quente noites frias,
Que derrete noites quentes?

Causa em vão.
De deter-lhe, não há maneiras.
Aceitar-te é abraçar o sofrimento.
Negar-te é inclinar-se à angústia.
Ouvir-te é entregar-se à loucura.
E querer-te é de toda nossa natureza.

Não me deixe em Paz.
Vem, arranca carne de meu ser.
Faz-me teu joguete.
Tem-me louco,
pois já não pertenço aos sãos.

Faz-me sofrer.
Tortura-me.
Faz-me querer-te mais.
Não hei de lhe odiar.
Posto não ser este o teu oposto.

Amor,
Penoso, Amor, é o que és.
Sofrer, Amor, é o que fazes.
A dor, Amor, é o que provocas.
Entenda Amor, entenda,
Que negar-te,
É negação da Human’essência.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

The Devil is a Preacher (^!!!^)

O diabo está a se arrumar,
pois hoje, ele vai sair pra jantar.
“Jantar hoje? Com quem?”,
há de perguntar-me alguém.
Mas lhes digo de antemão,
antes que usada em vão
seja sua voz.
Sairá pra jantar o tinhoso
Com um algoz.
Um que não é dos meus
e certamente não é dos teus.
Sairá jantar com aquele que chamam de Deus.
Um jantar de negócios, devo dizer.
Pois ambos têm assuntos de interesse, não de lazer.
Sairão para jantar então,
com o propósito de uma negociação.
Pois a situação está braba, seja aqui, na Terra
Ou na “última morada”.
E seja esta Inferno ou Céu
A recessão lá afeta, de maneira indiscriminada.
E ao se encontrarem para jantar, põe - se Deus,
A matraquear:
“Amigo Lúcio, devo dizer,
que a situação na Terra, do Céu observada,
sei que não é
mas me parece uma piada.”
“Ora Todo Poderoso, como a explica então?”
Perguntou o diabão.
“Não, posso, mas já lhe dito
o quão arrependido as vezes fico
de ter concedido aos humanos,
o dom do livre arbítrio.”
“Pois, com esta recessão,
luta família contra família,
irmão contra irmão.
E dessa situação tão cruel
como posso eu acreditar
que tenha a ver com sorte ou azar
a entradas de almas no Céu?”
“Os humanos perderam o juízo
e, como amigo, lhe aviso
que o lugar onde habito
tornar-se-á um Paraíso.”
E em toda esta discussão
Nem Polícia, nem Ladrão
chegariam a um consenso
por meio da razão.
Pois almas faltariam no Céu
e estas, para onde iriam?
Alimentar-se de fel.
Em vidas, cabeças ocas.
Em morte, companheiras do senhor das moscas.
E este, vil e trapaceiro,
Não podia estar mais faceiro,
ao propor a Deus uma barganha.
“Jogaremos pelas almas,
você as leva, se nas cartas me ganha.”
“Deus não joga pela vida de seus filhos,
mas a situação é tensa.
Então, por que dar ouvidos
a consciência pretensa ?”
E à jogatina se inclinaram.
E por horas então pelejaram.
Munidos de azes e valetes.
Fumando charutos de fumaça azul.
Ouvindo Jazz ou Blues.
E Deus por fim ganhou.
As almas ele salvou.
Da mesa se levantou.
E, disfarçadinho,
picado, bem picadinho
Uma carta escondida,
O Senhor rasgou.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Criança do quarto.

A criança do quarto.
(quarto de criança)

(sonhos)
(desconforto)
(fome)
(acordei!)
(tudo aqui é grande)
(alguém tem que vir aqui!)
(chamo)
(barulho)
(alguém)
(ela)
(prazer)
(estou feliz)
(levanto)
(me levanta)
(não quero isso)
(tenho fome)
(fome)
(mamar)
(desço)
(deito)
(me deita)
(tira roupa)
(põe roupa)
(não quero isso)
(tenho fome)
(fome)
(algo na minha cabeça)
(SOBRE meu rosto)
(escuro)
(medo)
(me ajuda)
(que é isso?)
(não dá pra chamar ninguém)
(dor)
(sem ar)
(escuro)
(sem ar)
(sem...)
(dormir)
(pra sempre)


Para entender melhor > http://absintoverbal.blogspot.com/2006/11/quarto-de-criana.html

Video > http://www.youtube.com/watch?v=XRxCI8byk_E

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Da mutação da Realidade (o Deserto do Real)

Olá raros, apreciados e queridos leitores.
Mais uma vez, a quantidade de tempo que passei sem escrever aqui é tamanha que me pergunto como este espaço não foi excluído.
E mais uma vez, como tarefa à mim confiada, estive outra vez paralelizando teorias.
Que pode surgir quando se espera por uma hora, sob uma árvore, rodeado de pernilongos, imaginando quanto tempo mais levará até que todo o chumbo das nuvens desabe sobre sua cabeça? Além dos comuns e esperados palavrões e blasfêmias, surge uma especulação (seria pretensão demais usar o nome "teoria") a respeito da realidade.
Quanto tempo eu passei esperando pela minha carona? E quanto tempo minha carona levou para chegar até onde eu estava?
Isso nos põe diretamente em contato com a mutabilidade da realidade.
A Realidade é mutável! Isto quer dizer que, a percepção de realidade altera-se de acordo com o ponto de vista do observador!
Colocando isto em um plano maior, trabalhando com questões sociais, como política e guerras, os conceitos de "certo" e "errado" podem ser duas coisas distintas, ou duas coisas idênticas, variando conforme estas são analisadas. Tudo depende de uma questão moral, mas, até mesmo esta, é mutável.
Sendo a realidade mutável, como é possível que existam os conceitos de estabilidade, ética ou mesmo, o conceito de realidade?

Como fruto deste texto, deixo à vocês alguns convites:

1 - Respondam a última frase do texto.
2 - assistam Matrix ( o primeiro apenas) e Minority Report.
3 - Leiam o "Mito da Caverna."

terça-feira, 29 de julho de 2008

A Maleta

Para os que andavam cansados de anticlímax, hitórias Carollianas e viagens afins...
Um texto com o mesmo teor alcoólico da freada, mas não póstuma "A Volta".


A Maleta
- Por que você escolheu justo este lugar?
O lugar em questão era um destes cafés que se encontra no centro da cidade. Reduto de escritores, músicos e todo o tipo de artistas underground. Aqui e ali, era possível ver um casal bebendo alguma coisa, alguém jogando poker, e o garçom, em seu uniforme preto, sempre mantendo as mesas limpas.
Numa mesa próxima à parede esquerda, estavam dois homens. Sentados frente a frente, um deles tomava café. O segundo acabara de chegar. Trajava terno preto e camisa branca. O outro, tomando café, trajava também terno, sem gravata, com camisa preta. Sentado calmamente, achou divertida a expressão de ansiedade no rosto do segundo homem.
- O ambiente aqui é legal. Artistas wannabe, pouca luz. Uns jogadores de poker logo ali. – Fez sinal com a mão direita em direção à mesa com jogadores. – E além do mais, estamos seguros aqui.
- Seguros?
Havia motivos sim. Aliás, inúmeros motivos para tal suspeita. As conseqüências ainda podiam ser sentidas por todo o lugar. Policiais e gangsters estavam circulando como loucos pela cidade, desde o dia em que o crime ocorreu. Qualquer movimento suspeito era passível de prisão imediata. Por parte dos gangsters, a coisa era mais complicada. Desaparecimentos, mortes, possíveis torturas. Todos queriam algo. Os policiais queriam os culpados. Os gangsters queriam a mercadoria.
- Seguros, claro. Ainda não notou a loucura em que este povo está vivendo?
- De qualquer maneira, por que você me chamou aqui?
O primeiro homem inclinou-se para mais perto do segundo homem. – Sente-se. Você não quer chamar a atenção. – O segundo homem sentou-se, pediu um café expresso com leite.
- O que você quer? – Ele sabia do risco que corriam e, claro, estava com medo. Mal fez a pergunta, e um trio de homens fortes, vestidos socialmente entraram juntos no café, foram para o balcão, fizeram algumas perguntas e saíram. Felizmente não notaram um homem de cabelo longo e outro homem com cara cínica do, pois estavam justamente atrás dos dois.
- Mais um motivo para eu ter escolhido este lugar. – Disse o primeiro homem. – O dono do estabelecimento é amigo da família a anos.
- Amizades não compram lealdade! Não em tempos como este.
- Isso é verdade. Mas dinheiro e poder sempre compram. – Disse o primeiro homem, tirando do bolso uma corrente, com pingente porta-retratos. Eram fotos da esposa e filha do dono do estabelecimento, que estavam tranqüilas em casa, ignorando a presença de atiradores que as matariam se certo telefone não tocasse até as 14h00min.
Era meio dia.
O café expresso do segundo homem chegou.
Uma sirene de policia fez-se ouvir. Um olhar atento revelaria rostos preocupados no estabelecimento.
- O que eu quero? Você ainda me pergunta? – Disse o primeiro homem. Não é óbvio? Eles não estão atrás de você também?
Eles estavam atrás dos dois homens. Ambos eram homens sem casa desde o dia do crime. Motéis baratos eram o melhor que podiam querer. Todo o resto seria facilmente rastreado. E não podiam deixar a cidade. Tinham um prazo a cumprir. Todos tinham de cumprir o prazo, o que seria mais fácil para os que estavam presos ou mortos. O cerco policial e criminoso apertava, e agora restavam uns poucos do grupo original. Dois haviam sido presos, e não se podia ter certeza sobre aqueles que eles não viram mais. Iriam cumprir o prazo, sumir do mapa e buscar noticias, meses depois.
- Você já foi buscar? – Perguntou o segundo homem, um tanto confuso, depois de tantas informações.
- Sim. E confesso que não foi fácil. Havia dezenas de cães policiais por ali. Mas a pior parte foi tomar anti-rábica. – Disse o primeiro homem, exibindo um antebraço enfaixado.
- Bom, e onde ela está? – Perguntou o segundo homem. Foi interrompido por um toque em sua canela, que indicou que a mercadoria estivera ali todo o tempo, encoberta pela toalha da mesa do café.
Agora eram quinze para a uma.
- Você a trouxe pra cá? Qual o seu problema? – Disse o segundo homem, num esforço homérico para não gritar.
- Cale a boca!
Talvez, com um pouco menos de exaltação, uma das artistas que estava ali não teria se levantado, saído do café e, um quarteirão depois, posta dentro de um carro preto dos gangsters, apenas por se parecer com a mulher de um dos procurados. Ela tinha apenas 19 anos, tocava saxofone com maestria, e, naquela noite, receberia uma ligação que confirmaria sua presença em um espetáculo da cidade.
Nunca mais foi vista.
Uma hora da tarde.
- Conseguiu abrir? – perguntou o segundo homem, um tanto enervado pelo fato de saber que sua declaração de culpa estava bem ao lado de seus tornozelos.
- Claro que não. Acho que só o Dan sabe a combinação.
- É verdade. – Disse o segundo homem. Bom, temos de levá-la até ele?
- Ficou maluco? – Disse o primeiro homem, um tom de voz mais alto que o seguro. No mesmo momento, três pessoas deixaram o café. Uma delas apanhou um ônibus e foi pra casa. Sentou-se no fundo, adormeceu e, quando acordou, estava sem carteira. As outras duas pessoas, um rapaz e uma garota, pegaram o metrô e seguiram caminhos opostos. O rapaz decidiu ir ao shopping para comprar um presente para a sua namorada. Lá, encontrou-a aos beijos com outro rapaz. A garota, ao chegar em casa, certificou-se de que ninguém estava lá e cheirou uma carreira de cocaína. – Não podemos levá-la ao Dan! Teremos de nos encontrar, os três em outro local.
- Está certo. – Disse o segundo homem. – Onde acha que poderemos fazer isso?
- Não tenho certeza, - disse o primeiro homem. – mas acho que aquele restaurante chinês ainda é um porto seguro.
- Certo, certo. Podemos fazê-lo. Que acha de hoje à noite, as 21h00min?
- Ainda hoje? Está certo. Precisamos agir rapidamente.
Pediram outra xícara de café e ficaram em silêncio por alguns minutos. Apenas o tic-tac do relógio de parede que estava atrás da cabeça do segundo homem e os murmúrios que vinham do grupo do poker quebravam a monotonia dos pensamentos dos dois homens.
- Que horas são? Perguntou o segundo homem
- São uma e trinta e cinco. Disse o primeiro homem.
- Não acha que é hora de um certo telefone tocar?
- É, creio que sim.
- Já lhes pagou?
- Uma parte sim. A outra será depositada às 14h00min em ponto.
- Bom, diga-os para irem embora, que o trabalho deles está feito.
O primeiro homem assim o fez. Apanhou seu celular e deu as ordens aos atiradores. O segundo homem abaixou-se, apanhou a maleta e colocou-a sobre a mesa, com os números voltados para si.
- O que está fazendo? Perguntou o primeiro homem?
- 6-6-6. Esta é a combinação da maleta. – Disse o segundo homem, com um sorriso de canto de boca, olhando para dentro da maleta, e depois para o primeiro homem. Se houvesse prestado atenção aos óculos espelhados do segundo homem, o primeiro poderia ter visto que as pessoas sentadas ás suas costas haviam se levantado.
- Desgraçado. – Disse o primeiro homem, em tom de descrença, um segundo antes de uma bala de baixo calibre sair do cano da arma silenciada de alguém as suas costas e vir enterrar-se no meio de sua cabeça.
O segundo homem fechou a maleta e saiu do café, parando junto ao dono do lugar para entregar-lhe o pingente com a foto de sua esposa e filha. Então saiu pela porta, enquanto dois gangsters disfarçados de clientes fechavam as portas do estabelecimento para que fosse feita a limpeza do lugar.